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Paciente 01662: a arte que transformou o manicômio e a visão sobre o louco

Paciente 01662: a arte que transformou o manicômio e a visão sobre o louco

A definição de normalidade é a do comportamento que se encaixa no padrão, no comum, no usual. O diferente e o exótico costumam ser relegados ao campo da loucura. Apresentados sempre como oposições a normalidade e a loucura são categorias que inventamos para dividir o comportamento humano. A tendência em dividir as pessoas em lugares normais e lugares loucos criou ao longo do tempo o estigma de que a loucura é a condição do exilado, do pária, do doente.

Entretanto, conceituar o louco como o diferente, o não-usual, o aproxima de outra figura: o artista. Dentro da percepção do artista, os temas da normalidade são revistos, refeitos e a linha divisória entre loucura e normalidade é apagada.  Fora de uma divisão excludente, a loucura e a arte tornam-se coisa única. Como na história de Arthur Bispo do Rosário, o paciente 01662.

Arthur Bispo do Rosário perambulou entre a realidade e o delírio, aos 29 anos acompanhado de um exército de anjos vagou pelas ruas do Rio de Janeiro de 1938. Era dezembro, dia 24, enquanto comemorava-se o nascimento de Cristo, ele vestia seu manto e fazia ao mundo sua “anunciação”, ele veio para representar o mundo.

Levado ao Hospital dos Alienados, na Praia Vermelha, recebeu um diagnóstico e uma ficha: negro, sem documentos, indigente. De lá seguiu para a Colônia Juliano Moreira, onde viveria por 50 anos. Lá se tornaria o paciente 01662, O diagnóstico: esquizofrenia paranoide.

Nasceu em Sergipe, na cidade de Jarapatuba, Aos 16 anos, foi inscrito pelo pai na Escola de Aprendizes de Marinheiros de Sergipe e embarcou num navio como ajudante-geral. Ficou na instituição até 1933, viajando pelo País e colecionando advertências por comportamentos inadequados. Mas também se tornou um bom boxeador. Foi campeão sul-americano na categoria peso-leve.

Após ser expulso da corporação, fez diversos bicos na cidade carioca, até se tornar lavador de bondes. Sofreu um acidente durante o trabalho e ao levar o caso à justiça conheceu o advogado Humberto Leone, ele se sensibilizou com o caso de Bispo e o empregou em sua própria casa como ajudante de serviços gerais. Bispo do Rosário morava em um quartinho na casa do advogado até o dia em que as vozes vieram.

Movido por essas vozes Bispo disse que era um enviado do Todo-Poderoso, responsável por julgar os vivos e os mortos. Ele tinha uma missão, “Vozes me dizem para me trancar em um quarto e começar a reconstruir o mundo”, dizia ele.

Foi o que fez durante o tempo em que passou internado. Na época o tratamento destinado aos pacientes psiquiátricos incluía choques elétricos, medicação sedativa muito forte e até mesmo lobotomia.  Trancado por um período de anos, ele produziu o que mais tarde viria a ser chamado de “Primeira experiência legitimamente brasileira da Pop Art”.

Ele nunca havia ouvido falar de Andy Warhol ou ainda Marcel Duchamp, a quem comparariam sua obra, e negava o rótulo de artista, creditava tudo à sua missão. Arthur Bispo do Rosário produziu mais de 800 obras, incluindo a mais famosa o “Manto da Apresentação”. Eram colagens, estandartes, tapeçarias, pinturas e bordados, tudo produzido a partir de materiais descartados, trazidos pelos companheiros de manicômio ou recolhidos por ele mesmo.

Arthur Bispo do Rosário fazia arte do que a sociedade descartava, não só falando dos materiais que usava, mas sim da própria condição em que vivia e executava seu trabalho. “Os doentes mentais nunca pousam, ficam sempre a dois metros do chão” era o que falava sobre a própria condição e a de seus companheiros.

Para entrar em seu Ateliê,  o interessado deveria responder à pergunta “Que cor tem o meu semblante?”, quem não via cores em Bispo não poderia entrar. Ele reconstruiu o mundo em suas obras. Sua memória, sua estética e sua loucura ficaram estampadas nas peças que enfeitaram a Colônia Juliano Moreira.

Como o próprio Bispo dizia ele não era um artista, ele era alguém com uma missão. “Eu vou reconstruir o mundo e depois vou subir”.  Ele morreu em  5 de junho de 1989, se sentiu mal e foi atendido no setor médico. Estava muito magro pelos jejuns que fazia durante os longos períodos em que produzia. Morreria horas depois, vítima de enfarto, aos 80 anos.

Por Rodrigo Correia

FONTE: http://ulbra-to.br/encena/2012/09/07/Paciente-01662-a-arte-que-transformou-o-manicomio-e-a-visao-sobre-o-louco

 

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1 Comentário

  1. Alisson Ryan Ferreira agosto 28, 2016

    O paciente e louco mais age feito gente normal nao tem controle de suas emoções tem pensado elevado se conseguirem Levalo até o fim do mês agradeço obrigado

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